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SPCI - Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos

Revista Brasileira de Terapia Intensiva

AMIB - Associação de Medicina Intensiva Brasileira

OFFICIAL JOURNAL OF THE ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MEDICINA INTENSIVA AND THE SOCIEDADE PORTUGUESA DE CUIDADOS INTENSIVOS

ISSN: 0103-507X
Online ISSN: 1982-4335

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How to Cite


 

Amâncio J, Scuro G, Gazoni FM, Guimarães HP, Vendrame LS, Lopes RD, et al. Leucemia mielóide crônica e síndrome de hiper-viscosidade. Relato de caso. Rev Bras Ter Intensiva. 2008;20(1):99-102

 

 

2008;20(1):99-102
Case Reports

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-507X2008000100016

Chronicle myeloid leukemia and hiperviscosity syndrome. Case report

Leucemia mielóide crônica e síndrome de hiper-viscosidade. Relato de caso

Juliana AmâncioI, Gisele ScuroI, Fernanda Martins GazoniI, Hélio Penna GuimarãesII,III,IV, Letícia Sandre VendrameIV,V, Renato Delascio LopesII, Antônio Carlos LopesVI

IMédica Especializanda em Clinica Médica pela Disciplina de Clínica Médica da UNIFESP-EPM
IIMédico Assistente da UTI da Disciplina de Clínica Médica da UNIFESP-EPM
IIIMédico da Divisão de Pesquisa do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia
IVTítulo de Especialista em Medicina Intensiva pela AMIB/AMB
VChefe da UTI da UTI da Disciplina de Clínica Médica da UNIFESP-EPM
VIProfessor Titular da Disciplina de Clínica Médica da UNIFESP-EPM

Apresentado em 26 de novembro de 2007
Aceito para publicação em 28 de janeiro de 2008

Corresponding author:

Dr. Hélio Penna Guimarães
UTI da Disciplina de Clínica de Médica- UNIFESP-EPM.
Rua Napoleão de Barros, 715/3º A - Vila Clementino
04024-002 São Paulo, SP
E-mail: heliopg@yahoo.com.br

 

Abstract

BACKGROUND AND OBJECTIVES: Hyperleukocytosis (> 100 x 10(9)/L) is an uncommon presentation of chronic leukemias and it can present clinical symptoms of hyperviscosity syndrome. Hearing loss and blindness rarely occurs in patients with leukemia; however, it can be strong association with hyper-viscosity syndrome. The purpose of this paper is to report a case of acute hearing loss as the initial manifestation of acute leukemia and hyper-viscosity syndrome and also mainly aspects of the intensive care treatment.
CASE REPORT: A 41 year-old, male patient, who has been complaining about dizziness for six months with no response to symptomatic medications, was admitted to the emergency department with acute hearing loss. The physical examination was normal except for a bilateral hearing loss without an apparent cause. Laboratory exams showed total leukocyte: 645.000 with 66.4% blasts, hemoglobin: 7.0, hematocrit: 20.5, urea: 94, creatinine: 1.59, K: 5.6, Na: 138, INR: 1.38, TTPa: 0.89, troponin lower than 0.2, CK: 218, CKMB: 50, uric acid: 11.1. After a first hypothesis of leukemia with a high risk of hyper-viscosity complications, the patient was admitted to the Intensive Care Unit for monitoring and treatment. A bone marrow biopsy was performed and than started hidratation, hydroxyurea, allopurinol, dexamethasone. According to hematologists the patient had a chronic myeloid leukemia. Leukopheresis was performed one week after admission when total blood leukocytes were around 488.000. Ten days after the procedure the patient had no improvement of the hearing loss but total leukocytes were 10.100. He was discharge to the ward and 2 weeks later went home to continue ambulatory treatment.
CONCLUSIONS: The frequency of sensitive manifestations in patients with leukemia include not only visual and hearing loss but also many others manifestations such as conductive vertigo, facial palsy and infections. Hyperviscosity syndrome due to hyperleukocytosis is also a possible cause of sensorial loss, but the syndrome is often dependent on leukocyte counts greater than (>100 x 10(9)/L).This case is a representative of rare cases in which acute sensorineural hearing loss occurred as the initial manifestation of hyper-viscosity syndrome due to leukemia.

Keywords: hearing loss, hyper-viscosity, leukemia

 

 

INTRODUÇÃO

A incidência das perdas sensitivas agudas com da audição é extremamente rara, como manifestação inicial de leucemia. A hiper-viscosidade pode ser a causa de sinais e sintomas neurológicos presentes neste quadro, por propiciar a oclusão de vasos, como os que suprem à cóclea, causando isquemia que resulta em hipoacusia. As principais causas hematológicas que promovem hiper-viscosidade e perda sensitiva aguda são a leucemia, mieloma múltiplo e macroglobulinemia de Waldenstrom1-3.

O objetivo deste estudo foi relatar o caso de um paciente que apresentou perda súbita da audição como manifestação inicial de leucemia mielóide crônica e síndrome de hiper-viscosidade, bem como rever os princípios relacionados a seu tratamento em Medicina Intensiva.

 

RELATO DO CASO

Paciente do sexo masculino, 41 anos, procurou atendimento de pronto-socorro em novembro de 2006, com história de tontura e vômitos, sem nenhuma outra queixa e foi tratado com sintomáticos. As queixas se mantiveram e o paciente suspendeu a medicação em uso (cinarizina 75 mg ao dia) após duas semanas, sem aconselhamento médico. Em janeiro de 2007, retornou ao serviço com as mesmas queixas anteriores acrescidas de hipoacusia bilateral progressiva havia um mês e foi internado para investigação. Apresentava-se em bom estado geral e exame físico sem alterações, inclusive com a otoscopia normal. Tinha como antecedente um episódio de acidente vascular encefálico isquêmico havia 4 anos, associado à hipertensão arterial de base, mas sem seqüelas neurológicas. O hemograma inicial apresentava leucocitose importante (645.000), com 66,4% de blastos com características mielóides, 13,6% bastões, 15,3% segmentados, 1,4% linfócitos, 3,3% eosinófilos e plaquetas de 225.000. Foi considerada a hipótese de leucemia mielóide (Figura 1) e que poderia ser classificada como crônica agudizada ou aguda com leucoestase e síndrome de hiper-viscosidade decorrente do quadro.

O tratamento iniciado foi hidratação por via venosa, hidroxiuréia (2 g/dia), alopurinol (300 mg/dia), dexametasona (3 mg a cada 8 horas). O paciente foi transferido para a UTI devido à indicação de leucoaferese e possibilidade de ocorrência de novos eventos isquêmicos. Os exames laboratoriais na admissão do hospital foram cálcio: 8,8 mg/dL, uréia: 94 mg/dL, creatinina: 1,59 mg/dL, potássio: 5,6 mEq/L, sódio: 138 mEq/L, atividade de protrombina 56%, INR:1,38, relação de TTPa: 0,89, troponina inferior a 0,2, CK: 218, CKMB: 50, ácido úrico: 11,1 mg/dL, Hb: 7 mg/dL, Ht: 20,5%, Leuc: 488.000 (8% promielócitos, 13% mielócitos, 11% metamielócitos, 22% bastões, 93.7% neutrófilos, 2% eosinófilos, 1% basófilos, 1% linfócitos, 1% monócitos e 3% blastos), plaquetas 253.000. Foi coletado também material para biópsia de medula óssea de crista ilíaca anterior direita, que confirmou diagnóstico de leucemia mielóide crônica. A dose da hidroxiureia foi aumentada para 5 g/dia e mantidas as doses de alopurinol e dexametasona.

Foram iniciadas as sessões de leucoaferese (Figura 2), cerca de uma semana após o diagnóstico inicial, sem intercorrências. Após realização da leucoaferese e manutenção do tratamento com alopurinol, dexametasona e hidroxiuréia, houve diminuição progressiva da leucometria, mas manteve-se a hipoacusia.

O paciente recebeu alta para a enfermaria em seis dias após a última sessão de leucoaferese, com o seguinte hemograma: Hb 8,3, Ht: 24,3%, leucometria: 10.100 (3% bastões, 92% segmentados, 4% linfócitos e 1% monócitos) plaquetas: 356.000. Após 2 semanas de internação, o hemograma demonstrava Hb:7,3, Ht: 20,5 Leuco: 5680, Bast: 0%, Seg:92%, Eos: 0%, Bas: 0%, Linf: 5%, Linf atip:0%, mono:3%, plaquetas: 285000.

O paciente recebeu alta hospitalar para acompanhamento e tratamento ambulatorial fazendo uso de hidroxiuréia 2 comprimidos (1 g) e alopurinol (300 mg), com discreta aparente melhora da perda auditiva.

 

DISCUSSÃO

As perdas sensitivas como a surdez, associadas às manifestação de leucemia foi descrito pela primeira vez por Donne em 1844 e por Vidal em 1856. Em 1885 Pollitzer demonstrou pela primeira vez as alterações patológicas no ouvido interno que poderiam corresponder a mudanças ocasionadas por aumento da contagem leucocitária4-6.

O tipo de leucemia não parece estar relacionado com maior freqüência ou não dos sintomas sensitivos, já que foi relatada sua ocorrência tanto em leucemia mielóide crônica (LMC) como leucemia linfocítica crônica (LLC)7-12.

Alguns relatos na literatura médica descrevem mudanças histopatológicas em ossos temporais de pacientes com leucemia, que incluem hemorragia, infiltração leucêmica e infecção e tentam correlacioná-las a possíveis sintomatologias de perda sensitiva auditiva13-16. No entanto a causa mais freqüente de perda auditiva neurossensorial é a hemorragia ou isquemia intracoclear. A infiltração leucêmica poderia ser outro motivo a ser considerado. A presença de fibrose e formação óssea no ouvido interno, descritos, ocasionalmente, em relatos histopatológicos prévios são provavelmente uma conseqüência tardia da hemorragia, apesar de que há também a possibilidade dessas seqüelas serem de processos inflamatórios observados no ouvido médio17.

A síndrome da hiper-viscosidade decorrente da hiperleucocitose é uma provável causa da perda neurossensorial, e geralmente está relacionada à contagem de leucócitos superior a 500.000 por mm3,18 ou > 100 x 10(9)/L3, apesar da causa mais comum de síndrome de hiper-viscosidade estar associada ao aumento de imunoglobulinas plasmáticas, relacionadas à desordem celular plasmática observada na hiperglobulinemia de Waldenstrom e no mieloma múltiplo18.

O termo síndrome de hiper-viscosidade refere-se à combinação dos sintomas clínicos e achados no exame físico com a documentação do aumento da viscosidade sérica mensurada pelo viscosímetro de Oswald. Os sintomas geralmente são associados com a dificuldade do sangue em fluir na micro-circulação periférica e do sistema nervoso central (SNC). Os sintomas mais freqüentemente associados à hiper-viscosidade, mas não necessariamente específicos desta são: cefaléia, tontura, vertigem, nistagmo, perda da audição, borramento visual, sonolência e coma. Outros possíveis achados: hemorragia de mucosa (epistaxe, gengivorragia, sangramento gástrico) e ICC3,19-21.

O tratamento da síndrome de hiper-viscosidade consiste na redução da contagem de leucócitos para conseqüente diminuição da viscosidade. Apesar de não ser um procedimento totalmente inócuo, a plasmaférese representa o método mais efetivo para o controle da hiper-viscosidade, já que a resposta à quimioterapia pode demorar de 6 a 12 semanas para reduzir o impacto da leucocitose sobre a viscosidade sanguínea. Quando não houver possibilidade imediata de iniciar a leucoaferese, o manuseio da hiper-viscosidade pode ser feito com hidratação e hidroxiuréia até que se inicie o procedimento1,2,21.

Embora a leucoaferese seja um procedimento seguro na maioria dos casos, há também reações adversas que justificam sua execução e adequada monitoração em UTI3,21. Os problemas mais freqüentes são o sangramento no local de inserção do cateter, a hipocalcemia induzida pelo citrato, espasmos musculares e reação cutâneo-alérgica se manifestando com urticária. As complicações consideradas mais graves são anafilaxia grave, broncoespasmo e infecções18,21. A indicação de leucoaferese, em casos de leucemia aguda prómielocitica, deve ser desencorajada pela possibilidade de distúrbios de coagulação e hemorragia21.

Em casos semelhantes descritos por Chae e col.1 e Tsai e col.22, a leucoaferese melhorou a audição de pacientes que apresentaram a perda auditiva súbita devido à leucemia mielóide crônica. O diagnóstico de LMC foi feito precocemente, após o surgimento da perda auditiva e a leucoaferese foi instituída após exames laboratoriais e de imagem. Provavelmente a possível melhora dos pacientes nesses relatos estivesse relacionada ao emprego precoce do procedimento. Alguns achados para a irreversibilidade da perda auditiva explicada por alguns autores seriam a infiltração leucêmica no ouvido médio e o infarto do ouvido interno, ou mesmo hemorragias no sistema nervoso central14,16,22.

 

CONCLUSÃO

As perdas sensitivas agudas em pacientes com diagnóstico de leucemia podem ser decorrentes da síndrome de hiper-viscosidade e a leucoaferese torna-se um método a ser considerado como tentativa de reversão ou melhoria dos sintomas.

O caso apresentado é representativo de raros casos nos quais a perda auditiva neurossensorial aguda ocorre como manifestação inicial de leucemia e hiper-viscosidade e não durante o curso da doença. Exemplifica um diagnóstico diferencial a ser contemplado, para pacientes com queixa de perda auditiva ou sensorial aguda, antes de se diagnosticar a surdez idiopática. Adicionalmente, o diagnóstico precoce e sua possível intervenção imediata com hidratação, quimioterapia e leucoaferese podem potencialmente reduzir a probabilidade do estabelecimento definitivo do déficit sensorial.

 

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Recebido da UTI da Disciplina de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM), São Paulo, SP.

 

 

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